quarta-feira, 28 de março de 2012

Álvares de Azevedo - mal do século!


Na fase conhecida como “mal do século”,  entre 1850 e 1860, surge um dos maiores representantes da literatura Brasileira: Manuel Antônio Álvares de Azevedo, nascido na cidade de São Paulo em 12 de setembro de 1831. Morreu com apenas 20 anos em 25 de abril de 1852 deixando para trás obras feitas de pesadelos de ópio, repletas de um amor platônico que por vezes nos carrega até os absurdos da necrofilia. Suas poesias ambientadas em descrições tão soturnas quanto as de Edgard Allan Poe, traz-nos uma arte e uma forma única.

Sonhando
Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! Que rosa, que filha de deus!
Tão pálida – ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! E a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma;
De noite – aos serenos – a areia é tão fria,
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelo soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam – a brisa os roçou,
Beijo-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou;
Sentou-se na praia; sozinha no chão
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração,
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia.
O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia – na fronte que níveo suar!
Que mão regelada no languido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar!
Não durmas assim...
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão!
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estatua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhado,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu!
Nem mais transparente luzia o luar
Nem ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas aguas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
                    Espera por mim!                     

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